quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 7, Capítulo 3



O início da história você encontra aqui: http://impressoesemdesalinho.blogspot.com/2009/11/folhetim-vagabundo-historia-7-capitulo.html

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Ana Clara sentia o coração batendo tão forte em seu peito que parecia que ele iria escapar-lhe pela boca, o ritmo acelerado deixando-lhe completamente sem chão. Ele sente saudade, sente saudade... Ele sente a minha falta. Não se lembrava de palavras doces como essas sendo jamais pronunciadas pelos lábios de seu pai. Ao menos não em relação a ela. Sempre Mariana. Mas agora Mariana não estava lá, eram apenas os dois, pai e filha, como no início, e ele sentia a sua falta, apesar do telefone, apesar dos incômodos, apesar de todas as suas faltas e incompetências, apesar de....

Ana Clara sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.

O pai suspirou profundamente, fechou os olhos e limpou a garganta.

- Eu sempre segui suas pegadas na areia da praia. Seguia-as de longe, pelas janelas do escritório, uma a uma. Sua alegria ao brincar só, chutando ondas e deixando suas marcas pelo caminho me alegrava os dias e me lembrava de como eu também costumava deixar minhas pequenas pegadas na areia fofa e olhar para trás, orgulhoso de ter transformado aquilo tudo.

Ana Clara nunca soube que era observada. Sempre fizera de tudo para conseguir a atenção do pai, sem imaginar que a tinha sem esforço a cada vez que corria despreocupada, vento no rosto, pela praia. De olhos fechados e com a sensação da brisa fresca tocando-lhe a pele, ouviu o pai continuar.

- Ela precisa saber que sempre foi a minha inspiração, Mariana. Precisa saber que a distância entre nós nunca foi intencional, que eu simplesmente não sabia como vencê-la. Eu era um homem muito ocupado, contido, as barreiras pareciam para mim intransponíveis e justamente por isso eu entendo, hoje, aquele beijo.

Ana abriu os olhos e sentiu o coração subir-lhe à garganta. Sabia que era disso que se tratava, teriam ali, no leito de morte do pai, a conversa que nunca tiveram a coragem de iniciar ao longo da vida.

Lembrava-se perfeitamente do dia em que entrara no escritório do pai ao entardecer e encontrara-o dormindo estirado no sofá de couro marrom. Aproximou-se cuidadosamente, ajoelhou-se ao seu lado e sentiu uma vontade enorme de tocar-lhe a face. A necessidade de contato chegava a doer. Ana Clara inclinou-se lentamente para beijar-lhe a fronte e, sem perceber claramente o que fazia, tomou-lhe os lábios em um beijo calmo, sentido, de alma. O pai chegou a retribuir-lhe o beijo, acariciando-lhe os cabelos, até que abriu os olhos, reconheceu-a surpreso e, indignado, afastou-a definitivamente. Ironicamente naquele momento ela só conseguia pensar se seu pai percebera que ela havia fumado, ou se o chiclete mentolado que sempre mascava antes de entrar em casa havia dado conta do recado.

Mal sabia ela da repercussão que aquele simples beijo teria e do tamanho do abismo que criaria entre eles. Mal sabia ela, também, que aquele seria o seu único beijo, que os únicos lábios que sentiria contra os seus ao longo da vida seriam sempre os de seu inatingível pai.

Jamais tocaram no assunto. Jamais. Aquele fim de tarde ficou escondido em suas memórias, entalado em suas gargantas, disfarçado entre os móveis da casa, suspenso sobre a mesa de jantar.

E então mãos trêmulas tomaram as suas, olhos úmidos de reconhecimento miraram-lhe fundo na alma e os mesmos lábios, agora ressecados e murchos, moveram-se para dizer-lhe algo, sendo porém interrompidos pelo bipe estridente dos monitores da UTI. Olhos nos olhos, mãos trêmulas ficaram pesadas, lábios se contorceram e uma lágrima de despedida escorreu pela face pálida e enrugada do grande doutor, ao mesmo tempo em que a porta do quarto se abria para deixar entrar duas enfermeiras apressadas e uma assustada Mariana.

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Continua aqui: http://olhosrecemnascidos.blogspot.com/

Um comentário:

Luli disse...

Que delicado, Ju. Lindo, lindo. Eu estou amando esta história.