quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 7, Capítulo 3



O início da história você encontra aqui: http://impressoesemdesalinho.blogspot.com/2009/11/folhetim-vagabundo-historia-7-capitulo.html

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Ana Clara sentia o coração batendo tão forte em seu peito que parecia que ele iria escapar-lhe pela boca, o ritmo acelerado deixando-lhe completamente sem chão. Ele sente saudade, sente saudade... Ele sente a minha falta. Não se lembrava de palavras doces como essas sendo jamais pronunciadas pelos lábios de seu pai. Ao menos não em relação a ela. Sempre Mariana. Mas agora Mariana não estava lá, eram apenas os dois, pai e filha, como no início, e ele sentia a sua falta, apesar do telefone, apesar dos incômodos, apesar de todas as suas faltas e incompetências, apesar de....

Ana Clara sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha.

O pai suspirou profundamente, fechou os olhos e limpou a garganta.

- Eu sempre segui suas pegadas na areia da praia. Seguia-as de longe, pelas janelas do escritório, uma a uma. Sua alegria ao brincar só, chutando ondas e deixando suas marcas pelo caminho me alegrava os dias e me lembrava de como eu também costumava deixar minhas pequenas pegadas na areia fofa e olhar para trás, orgulhoso de ter transformado aquilo tudo.

Ana Clara nunca soube que era observada. Sempre fizera de tudo para conseguir a atenção do pai, sem imaginar que a tinha sem esforço a cada vez que corria despreocupada, vento no rosto, pela praia. De olhos fechados e com a sensação da brisa fresca tocando-lhe a pele, ouviu o pai continuar.

- Ela precisa saber que sempre foi a minha inspiração, Mariana. Precisa saber que a distância entre nós nunca foi intencional, que eu simplesmente não sabia como vencê-la. Eu era um homem muito ocupado, contido, as barreiras pareciam para mim intransponíveis e justamente por isso eu entendo, hoje, aquele beijo.

Ana abriu os olhos e sentiu o coração subir-lhe à garganta. Sabia que era disso que se tratava, teriam ali, no leito de morte do pai, a conversa que nunca tiveram a coragem de iniciar ao longo da vida.

Lembrava-se perfeitamente do dia em que entrara no escritório do pai ao entardecer e encontrara-o dormindo estirado no sofá de couro marrom. Aproximou-se cuidadosamente, ajoelhou-se ao seu lado e sentiu uma vontade enorme de tocar-lhe a face. A necessidade de contato chegava a doer. Ana Clara inclinou-se lentamente para beijar-lhe a fronte e, sem perceber claramente o que fazia, tomou-lhe os lábios em um beijo calmo, sentido, de alma. O pai chegou a retribuir-lhe o beijo, acariciando-lhe os cabelos, até que abriu os olhos, reconheceu-a surpreso e, indignado, afastou-a definitivamente. Ironicamente naquele momento ela só conseguia pensar se seu pai percebera que ela havia fumado, ou se o chiclete mentolado que sempre mascava antes de entrar em casa havia dado conta do recado.

Mal sabia ela da repercussão que aquele simples beijo teria e do tamanho do abismo que criaria entre eles. Mal sabia ela, também, que aquele seria o seu único beijo, que os únicos lábios que sentiria contra os seus ao longo da vida seriam sempre os de seu inatingível pai.

Jamais tocaram no assunto. Jamais. Aquele fim de tarde ficou escondido em suas memórias, entalado em suas gargantas, disfarçado entre os móveis da casa, suspenso sobre a mesa de jantar.

E então mãos trêmulas tomaram as suas, olhos úmidos de reconhecimento miraram-lhe fundo na alma e os mesmos lábios, agora ressecados e murchos, moveram-se para dizer-lhe algo, sendo porém interrompidos pelo bipe estridente dos monitores da UTI. Olhos nos olhos, mãos trêmulas ficaram pesadas, lábios se contorceram e uma lágrima de despedida escorreu pela face pálida e enrugada do grande doutor, ao mesmo tempo em que a porta do quarto se abria para deixar entrar duas enfermeiras apressadas e uma assustada Mariana.

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segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Café com Queijo

Aproveitando o gancho do post anterior, Café com Queijo é uma peça que certamente já espalhou muita moedinha por aí.

O trabalho do Lume é lindo, resultado de uma viagem feita pelo norte do país em que eles conheceram muita gente, viram de tudo, comeram de tudo (até café com queijo...) e criaram um espetáculo de retalhos, uma colagem das figuras pelo caminho, uma representação super sensível daqueles homens e mulheres e suas histórias, vozes, cantos.

O gestual impressiona. A face, a curvatura da coluna, os movimentos da mão, o timbre, o sotaque, os dedos do pé, tudo muda a cada pessoa ali apresentada, a cada pessoa que entra no foco e fala com você olhando no olho, cantando, contando causo.

Sentados em círculo, bebendo da cachaça distribuída e cantando junto, nós, o público, escutamos e interagimos com as figuras trazidas de longe por aqueles atores geniais, olhares espalhados pela sala se cruzam, se reconhecem e compartilham seus próprios cantos e causos. A colcha de retalhos colorida ao redor, envolve e delimita, agrega e ilumina.

Dez anos depois de sua criação, Café com Queijo tem um frescor e uma verdade impressionantes. Aquelas figuras estão ali conosco, vivas, passe o tempo que for. O segredo? Para mim é um trabalho porreta de ator, o exercício diário da busca dos porquês e a lembrança de homens e mulheres que provavelmente já se foram, mas que a cada vez que se acendem as luzes rodeadas por aquela colcha de retalhos, voltam a existir, a contar seus causos e a inspirarem gente, enquanto a peça acontecer, por onde Café com Queijo passar.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Moedinha

- E aí, Ju, em cartaz com alguma peça?

- Estou sim, Ro. Estou fazendo Désir.

- Ah, qual é essa? A da moedinha?

- Da moedinha??? Que moedinha?

Não lembrava de peça minha com moedinha nenhuma....

- Aquela em que vocês jogavam moedinhas de chocolate...

- Ah..... Bits. Nossa mulher, de onde você desenterrou isso. Eu fiz essa peça em 2004!

- Pois é, eu nunca esqueço e a Pam também não. Ela amou. Mesmo. Gostou tanto que guarda a moedinha até hoje, acredita?

Uôu.

- Tá brincando?

- Tô nada. A moedinha tá lá na caixinha de lembranças boas dela, junto com outras coisas que marcaram.

- Nossa menina, não sabia. Há quanto tempo que eu não vejo a Pam. Manda um beijão pra ela, saudade. Fala para ela cuidar bem daquela moedinha, foi mesmo uma época boa...

Eu sei que sou uma patife e tals mas eu tive que respirar fundo para não sair de lá de olho vermelho. Mexeu comigo aquilo. Como as coisas que a gente faz continuam agindo e reverberando nas vidas por aí... Aquela peça tosquinha e divertida, um monte de cenas de musicais da Broadway que a gente gostava, unidas por uns textinhos explicativos, umas micagens e muito carão fez a diferença para alguém além de nós mesmos. A cena da moedinha era Money, Money, feita com uma “coreô” gozação total. No fim a gente jogava moedinhas de chocolate para o público, uma bobeira, um agradinho... Quando é que eu ia imaginar que alguém ia guardar aquilo como uma lembrança especial?

Fazendo arte a gente espalha moedinhas por aí sem perceber...

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 6



Capítulo 1

Corria loucamente.

O baço doía, os peitos siliconados sacudiam e se embolavam dentro do sutiã pontudo, o ar que entrava em seu corpo com um chiado rouco não lhe era mais suficiente mas corria mesmo assim. Precisava correr.

Enquanto seus pés esmagavam folhas secas e melecas da floresta, revivia os acontecimentos da noite em sua cabeça loira platinada. Como foi mesmo que tudo chegara àquele ponto? A espiada pelo buraco da fechadura, o beijo, os barulhos ininteligíveis, o cheiro forte de charutos e leite de rosas...

Olhou para trás e a visão dos três homens vestidos de palhaço lhe perseguindo era realmente surreal. Aquilo estava parecendo um filme trash das madrugadas da Band, exceto pelo fato de que ninguém seria tão retardado a ponto de imaginar e escrever uma história daquelas.

Continuava a correr enquanto pensava na sorte que tinha por estarem usando sapatos de palhaço. Isso lhes atrasava um pouco e lhe permitia manter a dianteira, mas não poderia correr para sempre.

A luz da lua e os ruídos da mata tornavam a cena ainda mais dramática. O esforço extremo lhe consumia e estava a ponto de desistir quando avistou ao longe uma pequena cabana com as luzes acesas, e então correu ainda mais.

Precisava desesperadamente de ajuda.

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Não perca a fantástica continuação dessa história amanhã, aqui: http://www.impressoesemdesalinho.blogspot.com/

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 5, Capítulo 2


A história começa aqui: http://olhosrecemnascidos.blogspot.com/

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Ele.

Sentiu um latejar nas têmporas e o sangue ferver-lhe as veias. Caraca. Isso nunca havia lhe acontecido antes. Os rostos que surgiam de seus traços eram sempre desconhecidos, conjuntos de olhos, boca, nariz e pêlos que não lhe diziam nada. Até hoje. Hoje, ao olhar aquele todo, o conjunto de traços repentinamente passou a ter voz, cheiro, lugar, som.

Ele.

Poderia encerrar o caso ali, naquela sala, naquele instante. Bastaria anotar no canto da folha um endereço. Sim, isso seria o certo a fazer, o óbvio, mas estranhamente o óbvio não lhe agradava. A figura tranqüila à sua frente, aqueles olhos rabiscados no papel, o frio na boca do estômago. Alguma coisa não se encaixava naquele cenário. Além disso, a descarga de adrenalina que lhe invadiu os poros era absolutamente deliciosa e o óbvio a fazer certamente poria fim a tudo, trazendo de volta o tédio que lhe permeava os dias.

Balançou a cabeça, suspirou fundo e seus olhos se cruzaram com os da mulher que acendia outro cigarro. Familiar. A figura lhe era mesmo familiar, já vira aqueles olhos, aquela boca, aquelas formas. Ela lhe chamara atenção anteriormente, apenas não conseguia encaixá-la no ambiente a que pertencia. Observava os detalhes, seus olhos treinados de desenhista esquadrinhavam a mulher à sua frente em busca de pistas e então ela viu a pequena estrela tatuada no dorso da mão que segurava o isqueiro. Lembranças daquela mesma estrela lhe levaram ao seu elevador, mão tatuada apertando o botão do andar acima do seu.

Ela.

Agora lembrava-se bem. Haviam se cruzado duas ou três vezes entre entradas e saídas do prédio de Helena. Mas não poderia ser, ela e ele então se conheciam. E o estupro denunciado? Havia certamente mais a saber do que a mulher à sua frente escolhera dizer à polícia e Helena pretendia descobrir.

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Continua aqui: http://www.impressoesemdesalinho.blogspot.com/

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 4, Capítulo 3




Essa história começa aqui: http://portudoquesinto.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-historia-4-capitulo.html

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Tudo começou três anos, dois meses e vinte e um dias antes, naquele fatídico 29 de setembro de 2009. A idéia aparentemente inofensiva, a proposta irrecusável, chegou por e-mail para os escolhidos que a acataram sem terem a menor noção de onde estavam se metendo, do caminho que trilhariam a partir dali.

A aceitação da proposta havia sido o divisor de águas nas vidas daquelas seis pessoas, o ponto de virada, o início de uma jornada fantástica jamais imaginada.

A proposta? A criação de um folhetim semanal escrito a 12 mãos, um autor por dia continuando a história escrita até então. Nascia naquela data o revolucionário Folhetim Vagamundo.

Acontece que o projeto alcançou instantaneamente uma popularidade nunca antes vista. A genialidade das histórias, o formato atípico, os desvios de pensamento, as mentes brilhantemente deturpadas, os temas esdrúxulos, os elementos recorrentes e a forma de inteiração entre os autores arrebataram e arrebanharam leitores em todo o globo. Os capítulos diários passaram a ser aguardados ansiosamente pela gigantesca e crescente legião de seguidores fiéis. Revistas, documentários, encartes jornalísticos, filmes hollywoodianos, grupos de discussão, páginas na Wikipedia, tablóides, programas de TV e uma infinidade de formatos de mídia dedicaram-se a cobrir incansavelmente o projeto. Os textos, escritos originalmente em português-brasileiro, passaram a ser traduzidos para milhares de idiomas e dialetos e lidos em todos os confins do planeta.

Diz-se inclusive que a ânsia generalizada pela leitura do famoso folhetim levou a Internet a lugares até então desprovidos de conexão. Sim, o folhetim espalhou o progresso, ampliou mentes, quebrou paradigmas e transformou os 6 escritores em ídolos mundiais, mais conhecidos do que Madonna, Michael Jackson, o Papa, a mulher melancia, o Obama e a Barbie juntos. As mentes brilhantes e as personalidades cativantes, aliados aos dotes físicos inquestionáveis dos autores, transformaram-nos nas celebridades mais cultuadas do universo, verdadeiros líderes popintelectuais com direito a bonequinhos articulados, álbuns de figurinhas e fã clubes enlouquecidos.

Para não se entediarem com o folhetim, os 6 magnânimos decidiram ao longo do tempo desafiarem-se, sacaneando-se mutuamente, provocando-se e colocando-se em situações aparentemente insolúveis. Assim, os capítulos passaram a contar com finais absolutamente inesperados, com a conjunção de objetos sem nexo como frutas estragadas, partes de animais, líquidos com lactobacilos vivos e instrumentos inusitados. A cereja do sundae passou a ser, então, a sinuca de bico criada e a expectativa pela saída para o imbróglio a ser proposta pelo próximo participante.

Nos três anos que se seguiram o projeto continuou a todo o vapor, aproveitou o potencial inesgotável daquelas mentes brilhantes e extrapolou as fronteiras da escrita, criando obras fantásticas variadas como sinfonias, esculturas, castelos de areia, musicais da Broadway, quadros de pontilismo, cartoons, coreografias, peças de teatro, ballets de repertório e ainda desvendando a maioria das grandes questões não resolvidas da humanidade. Até onde se sabe, mesmo os críticos mais exigentes passaram a dividir a história da arte em antes (Era Clueless) e depois do folhetim (Era Vagamúndica).

Ocorre que em 2012 o medo do fim do mundo se espalhou pelo planeta. Tudo culpa de uma profecia do avançadíssimo calendário Maia e da história número 3 do Folhetim, aquela clássica do sonho de Deus. Pois é, o bicho pegou e a humanidade pirou na batatinha mesmo. Pânico generalizado. Caos. De acordo com a profecia a data fatídica seria 21 de dezembro de 2012. O que lhes restava como último recurso? Pedir arrego às 6 mentes folhetinescas, aos líderes intelectuais, aos únicos que poderiam com o seu brilhantismo reinventar a roda, desvendar o mistério e, na pior das hipóteses, deixar como legado uma última obra de arte tão perfeita e bela que seria tida pelo porvir como o emblema de uma raça extinta avançadíssima.

O que nos leva de volta às 11:01 daquela manhã de 20/12/2012...


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quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 3 - O Imbróglio no Meio de Tudo


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Chegou em casa agoniado. Não sabia o que fazer com aquilo tudo dentro do peito, Carlos Frederico, Carlos frederico, Carlos Frederico.... Car-los-Fre-de-ri-co, Maura Rúbia, malditas alianças e o pedido. Argh.

Abriu a porta do quarto e esgueirou-se por debaixo das cobertas até aconchegar-se no colo ossudo da mãe. Não disse nada, não precisou. Ela sempre o compreendera, sempre soube o que pensava, o que sentia, e naquele dia não seria diferente. Mãos alisaram cabelos desgrenhados e Matheus Ricardo adormeceu um sono nervoso sob os olhos atentos da mãe.

E veio o sonho. Deus entediado, o anjo fofo taurino, o fim do mundo por vir, redemoinhos de substância amorfa, o buraco negro. Quando avistou os olhos da pessoa que chegou chegando, acordou assustado, a testa encharcada e outras partes também. Sua mãe sorriu um riso terno: - Matheus Ricardo, Matheus Ricardo – ela amava o som do nome que havia escolhido para o filho, nunca dizia só Matheus ou só Ricardo, os dois nomes juntos tinham a sonoridade perfeita - molhando a cama de novo? Ô meu menino...

Seguindo as dicas de seu terapeuta de anos, Matheus Ricardo anotou os detalhes do sonho, descreveu as nuvens, as conversas. Aquilo havia sido muito intenso e certamente escondia uma lição, uma dica, um sinal. Dona Jacintha, limpando os líquidos da cama já cheia de manchas de tons amarelados diversos, pensava em como solucionar a sinuca de bico em que o filho se encontrava.

Acompanhou por toda a sua vida as angústias de sua cria. Matheus Ricardo falava durante o sono e entregava-lhe, sem saber, todos os acontecimentos, medos e sensações que experimentava, dando-lhe informações suficientes para intervir na vida do filho como bem entendesse.

Quando Maura Rúbia apareceu, achou que os problemas amorosos de seu pimpolho estivessem finalmente solucionados. Ela era perfeita, pensou. O nome duplo de sonoridade perfeita, o gosto pelo jogo de tranca, pelas conversas sobre testes de revistas femininas, a personalidade forte, racional, decidida... O gênero. Finalmente Matheus Ricardo deixaria daquela besteira de brincar de gogo boy com os amigos de peito depilado, namoraria uma fêmea de boa família e lhe daria um neto.

Acontece que nos últimos tempos a relação não estava mais como antes. A química, a afinidade, as conversas sobre os testes de revistas, os jogos de tranca, nada mais lhe dava o prazer de antigamente. Seis anos haviam se passado e Jacintha sentia que sua relação com Maura Rúbia havia se esgotado, e que assumirem um compromisso àquela altura seria um erro terrível. Para completar, Matheus Ricardo voltara a ter amigos depilados, de cabelos esquisitos, lenços de estampa xadrez, ipods com músicas eletrônicas e cds de musicais norte americanos. E então Carlos Frederico apareceu. Desde que o jovem alto, estilo Gianecchini, surgira na vida de seu filho, os dois não se desgrudaram mais. Matheus Ricardo voltou a assobiar canções do ABBA, a treinar seus passos de gogo boy, voltou a sorrir e à noite só se ouvia o nome de Carlos Frederico povoando seus sonhos. Aquele seria mesmo o seu caminho e ela, Jacintha, como uma boa mãe, teria de entender.

Os conflitos do filho, porém, permaneciam. Ele achava que tinha uma dívida para com a sociedade, para com Maura Rúbia e insistia na realização do noivado. Comprara as alianças no dia anterior e chegara dizendo que faria o certo. À noite se encontraria com Carlos Frederico para dar-lhe a notícia e seguiria o seu destino ao lado da mulher que seria a nora perfeita para sua mãe.

A noite com Carlos Frederico começara perfeita. Falaram sobre tudo, boates, os lançamentos da Broadway, o timbre da Barbra Streisand, a SPFW, as tendências em cortes de cabelo. A conversa fluía fácil, olhares se encontravam, mãos se tocavam, a companhia era boa, o interesse genuíno. Uma coisa levou a outra, o vinho alterou os estados e a noite acabou com os dois exauridos e satisfeitos na horizontal. No auge do aconchego, Matheus Ricardo deu a bombástica notícia a Carlos Frederico de que iria se casar com Maura Rúbia e de que já havia até comprado as alianças.

Indignadíssimo e com o coração ferido, Carlos Frederico fez a louca e saiu desembestado pela rua, aos prantos, echarpe esvoaçando às suas costas. Matheus Ricardo na janela acenava, pedia perdão e limpava o nariz nas cortinas de voal. Do outro lado da rua Maura Rúbia observava imóvel a interação.

Sem esboçar qualquer reação, pegou o celular e apertou a discagem rápida número 2. Esperou.

- Alô. Maura Rúbia?

- Que cena bichesca foi essa agora, Matheus Ricardo? Olha eu aqui do outro lado da rua. Eu vou ligar para a sua mãe.

Desligou e apertou a discagem rápida número 1.

Sem reação, Matheus Ricardo fechou as cortinas, encolheu-se em posição fetal e esperou a exaustão trazer-lhe o sono. No quarto ao lado, enquanto ouvia os desaforos da mulher que seria sua nora, Jacintha tomou uma importante decisão.

Os sinais do sonho do filho sobre o Todo Poderoso, o tédio divino e o fim do mundo vieram apenas dar-lhe força para que tomasse as atitudes que sabia ter de tomar. A felicidade de seu filho guiaria seus passos.

Deus Todo Poderoso, por seu turno, teve no sonho do filho de Jacintha os sinais de que precisava para sair da sinuca de bico em que Ele próprio, o Magnânimo, se encontrava. Sabia agora o que teria de acontecer e gostava do que estava por vir. Gostava muito da idéia. Novos ares, pensou, ares de inexistência lhe fariam bem.

Preocupava-lhe apenas a questão não resolvida da pessoa que chegaria chegando...

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terça-feira, 20 de outubro de 2009

Vale dos Girassóis

A gente acordou cedo com a luz do dia se esgueirando pelos furinhos da barraca e com os barulhos de mato, levantou acampamento e se mandou pra trilha.

Que trilha...

O começo foi só descida, mas uma descida daquelas que carro não encara, sabe? Daquelas que não acabam mais e que fazem a gente querer chorar só de pensar na volta?

Pois é. Caímos bonitas no conversê de um mineirinho. “Ah, são uns 7km de caminhada ao todo, ida e volta. Logo ali. Vale a pena.” Olhei para a Tati , ela olhou para mim e pensamos - sussa, 7km a gente tira de letra. Somos os caras da trilha. Vamo que vamo.

O belezinha só esqueceu de dizer que o logo ali tinha uma inclinação de uns 70 graus. Tomamos, lógico. NUNCA confie nas indicações de um mineiro. NUNCA.

OK, bora. Anda que anda que anda comendo pó até que chegamos à cachoeira.

A água forte e gelada na pele quente, nas costas doídas, é uma das melhores coisas que se pode sentir quando se quer parar de pensar. Ficamos um tempão por lá, escalando pedra, falando da vida, deixando a água lavar, levar.

Tudo passa, certo? Certo.

Bora.

Bora que a fome estava grande e o caminho pela frente era longo e íngreme.

Mais umas indicações mineiras daquelas e uma subida que não acabava nunca e a gente chegou no melhor lugar do mundo naquele momento, o restaurantezinho chamado Vale dos Girassóis.

É assim: uma casinha de desenho daquelas quadradinhas, uma porta, duas janelas, tijolo à vista ao pé dos morros, antes do vale, feijão plantado ao redor, uma horta com verduras, legumes e flores, Chico Buarque no volume certo, suco de maçã fresquinho e duas pessoas queridíssimas.

A comida é tirada da terra na horinha de comer. Verduras que eu nem conhecia saíram direto do chão avermelhado para o meu prato azul, o ovo é caipira, as flores temperadas colorem o verde e há quem diga que são afrodisíacas. Há quem diga... Eu não estava em um dia para conferir mas quem sabe... Não duvido.

O papo bom, fácil, divertido fez a gente ficar, ficar. Quando o sol já estava baixando fomos embora de barriga cheia, alma lavada, cabeça tranqüila, e a subida da volta nem fez tanto estrago quanto a gente tinha imaginado. Umas panturrilhas doídas e só.

O Vale dos Girassóis é desses lugares especiais para se voltar de quando em quando. Refúgio mesmo, botão de reset. Sempre que der vou aparecer por lá para recarregar a bateria, acalmar o peito e quem sabe dia desses comprovar aquela história das flores afrodisíacas...

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Os Prêmios

Essa curva é perigosa demais, muita gente ainda vai morrer aqui, ouviu o marido dizer na garupa da moto com mãos ao redor da sua cintura. Semanas depois, na mesma garupa, viu a morte do marido naquela curva na noite de natal.

Estavam casados havia 6 anos.

Encontrei com ela no meio do nada, num restaurantezinho isolado em uma cidade menor que cenário de novela. Ela tinha o olhar triste desde o primeiro sorriso de oi. Pudera.

Tinha acabado de chegar para ficar um tempo com a amiga de longa data, para mudar de ares, aquietar a alma, repensar a vida. As coisas na casa de sempre, na cidade de sempre não andavam bem.

Como é que alguém se recupera de uma perda como essa? Eu não faço a menor idéia.

Uma amiga muito querida diz que se deve lembrar do prêmio, daquilo que fica de bom quando a dor passa, daquilo que faz tudo valer a pena. Pode ser.

Conversando a gente conhece dores nesse mundo, viu. Que dores... Dores que fazem as nossas parecerem tão pequenininhas. E conhece também os prêmios.

Existem lágrimas de dores e lágrimas de prêmios. Às vezes elas se misturam...

As lágrimas dela eram desse tipo, confusas, inconformadas, doídas e cheias de prêmio.

Eu dizia que tudo iria passar. Afinal tudo passa, certo?

Menos os prêmios, esses ficam. Ficam e voltam com o tempo, sem as lágrimas, sempre que a gente quiser.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Folhetim Vagabundo - História 2



O começo dessa história você vê aqui: http://derrubandoparedes.blogspot.com/2009/10/folhetim-vagabundo-historia-ii-capitulo.html

* Leia ouvindo isso: http://www.youtube.com/watch?v=iw7bpnNIKbk

Folhetim Vagabundo - História 2, parte 5

Tão previsível, pensou.

Quando ele entrou no saguão esbaforido, ela tirou do seio o envelope dobrado e entregou-lhe, mão estendida e sorriso de canto de boca estampado na face.

– Tive instruções de te entregar, caso você voltasse.

- Que porra é essa, Sônia? Quem te instruiu?

- Tive instruções para não te dizer...

Ele rasgou o envelope e abriu apressado o papel:

"Assustou, foi? Eu sabia que você ia pipocar, Odair. Cuzão e sem miolos como você é, sabia que ia voltar correndo para o único lugar onde te aturam e te dão colo. Às custas de quem? Do meu dinheiro, seu bastardo argentino de mierda. Como eu já estou me divertindo com isso tudo, vou te dar uma dica para ver se os seus neurônios conseguem se entender aí no ermo da sua cabeça:

O enterrado vivo suas marcas lá deixou
A grana não encontra quem viu mas não olhou."


Ele franziu a testa e pensou, pensou... Será? Estava confuso. Sônia podia ver as engrenagens girando na sua cabeça. Que dica foi essa, merda? Mania filha da puta desse velho maldito de falar em códigos.

O celular disparou o seu tango dramático e ele quase perdeu as bolas de tanto susto. O display espelhado piscava “Cosmo”.

- Caralho, Cosmo! Onde você tá? Que sumiço foi aquele no cemitério?

- Onde você está, Odair? Eu saí pelo cemitério para ver se estávamos sendo observados. Olhei tudo. Vasculhei aquela jossa inteira para ver se o velho não estava à espreita rindo da nossa cara. Nada. Sem viv’alma, como diria a mamãe. Depois voltei e você tinha sumido, cara. Foi aonde? Crise de diarréia de novo? Tô aqui esperando, tentando pensar...

- Eu vim para Itu falar com a Sonia. Ela me recebeu com mais uma maldita carta com dica do velho. Olha só: “O enterrado vivo suas marcas lá deixou, a grana não encontra quem viu mas não olhou”. Eu não entendi nada.

- Puta merda. Já te ligo.

Cosmo voltou ao caixão aberto, puxou a tampa arranhada para perto dos olhos e vasculhou cuidadosamente as marcas. No canto esquerdo inferior encontrou o que buscava. Leu a inscrição sem acreditar e discou o número de Odair.

- Alô.

- “É no chuê, chuê. É no chuê, chuá.
A picanha está na água quero ver quem vai buscar.”

- Ãh?

- O velho quer levar a gente de volta para aquela piscina, Odair.

- Puta merda, Cosmo, não pode ser. Eu nunca voltei lá depois daquela tarde.

- Eu vou e você também vai. A gente se encontra lá em uma hora. Eu não vou deixar aquele puto levar a melhor. Ele quer jogar pesado? Vamos jogar pesado. Eu pego essa herança nem que tenha que encontrar com ele no inferno, velho desgraçado.

**

Estacionaram os carros na entrada de paralelepípedos e desceram, pés pisando nas folhas espalhadas por todo o lugar. As paredes descascadas e as trepadeiras secas à luz da lua davam um ar ainda mais sinistro à casa que tinha sido o palco de todos os seus pesadelos nos últimos 15 anos.

Pularam a cerca de bambus que circundava o quintal e aos poucos sons familiares lhes alcançaram os ouvidos. “É no chuê, chuê. É no chuê, chuá. Não quero nem saber. As águas vão rolar.” Com o coração aos pulos e os olhos arregalados, se entreolharam.

Um sussurro lhes chamou a atenção e só então perceberam a figura de costas na churrasqueira, a fumaça cinza contra o escuro da noite e o cheiro de picanha argentina no ar.

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O final da história você lê aqui, amanhã: http://www.impressoesemdesalinho.blogspot.com/