terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Gido

“Eu lembro até hoje de quando saí correndo para abraçar a minha mãe no jardim interno do Centro Médico e blougdblurborb...”

Tudo o que ela disse depois de “Centro Médico” é um bololo para mim. Toda vez que o tal hospital vira assunto ou aparece em alguma conversa, a sensação de ver o meu avozinho pela última vez volta inteira, como se eu tivesse olhado naqueles olhos ontem mesmo, fim de tarde, nos corredores do segundo andar.

Aquele dia foi tão, tão especial. Apesar do susto, apesar de ele estar internado e fraquinho já, apesar de estarmos em um hospital, o que me vem até hoje daquela tarde é o sorriso gostoso, gargalhante, do meu avô querido. Ele estava no quarto, quietinho, meio jururu, até que eu e a minha irmã raptamos a cadeira de rodas (com ele em cima) e saímos pelos corredores, brincando, fazendo manobras radicais e contando as piadas que ele sempre contou para nós. Isso durou o que para mim, dez anos depois, parecem horas, até que paramos em frente ao jardim e ali ficamos, olhando as pessoas e o verde das plantas em total silêncio por uma eternidade. Tudo já estava dito. Tudo já tinha sido dito nas curvas daqueles corredores.

Hoje eu sei que aquela tarde foi a nossa despedida. Do jeito dele, divertida, leve, cheia das piadas fofas que ele contava todas as vezes que chegávamos no apartamento da rua Veiga Filho para os almoços de domingo. A gente sempre ria. A gente ria mil vezes, todas as vezes. Não por respeito ou qualquer outra razão, mas porque elas eram mesmo engraçadas quando ele contava como só ele sabia: sotaque forte, voz rouca, jeitinho carinhoso de vô.

Dois dias depois eu o vi de novo pela fresta da porta da UTI, tubo na boca, corpo exaurido, enrugado, olhos fechados, barulho agudo e angustiante do monitor cardíaco que naquela noite apitaria e faria o telefone de casa tocar no meio da madrugada.

Saudades, gido. Muitas. Imensas. Dos seus olhos, do seu sorriso, dos nossos passeios gargalhantes pelos corredores e de todos os nossos outros passeios gargalhantes por aí.

Um comentário: