segunda-feira, 12 de maio de 2008

Sampa

Cara, o que é São Paulo?

Quarenta minutos para ir da Oscar Freire à Marginal. Até aí, normal. Fiquei toda feliz quando cheguei na via à beira do rio Pinheiros (que graças ao frio fora do comum não cheirava a esgoto, só a escapamentos) e pensei: beleza, agora mais uma meia hora de marginal e “Bandeirantes, sweet Bandeirantes”. Rá, rá. Mal sabia eu.

Chegando perto daquele presídio estrategicamente localizado à beira dos trilhos e de uma das vias mais movimentadas desse Brasil (dã...), eu percebi que o buraco seria bem, mas bem mais embaixo. A porcaria do trânsito parou de um jeito que deu para sacar na hora que a noite seria longa por ali.

O negócio estava tão zicado que nem Murphy, o infalível, conseguia se manifestar. Sabe aquela coisa clássica de você sempre escolher a fila errada e assistir, puto da vida, às outras filas andarem lindamente ao seu redor? Nem isso acontecia já que tudo estava pa-ra-do mes-mo. Eu olhava para o lado e nada se movia além dos vendedores de pipoca rosa e Suflair.

Eu olhava a placa "Fiscalização eletrônica de velocidade - 90km/h" e fumegava. Devia haver um radar que multasse a prefeitura toda vez que o trânsito andasse a menos de 10km por hora. Não era possível, eu já havia sofrido em engarrafamentos antes, mas aquilo era um recorde e eu comecei a imaginar uma penca de motivos mirabolantes para aquela coisa toda. Uma fuga em massa da unidade prisional, a queda inacreditável da ponte do Piqueri, o atropelamento em série de duas dúzias de motoboys... Tudo isso junto, talvez?

Que nada. O pior de tudo é que três horas e alguns poucos quilômetros se passaram e não havia nada, nenhum acidente, nenhuma porcaria de pára-choque ralado. NADA. O congestionamento estava assim porque a cidade era assim. Uma merda.

Pelo menos eu consegui entender qual é a daqueles DVDs de painel, instalados ao lado do motorista nos carros de mano. Aquilo nunca fez sentido para mim, afinal, falar no celular não pode mas assistir a filme, tudo bem? Pois bem, até aquele dia nunca tinha atribuído utilidade alguma àquela coisa cafona e exibida, mas imaginem só, se eu tivesse um daqueles comigo poderia ter assistido a E o Vento Levou e ainda sobraria tempo. Utilíssimo. Eu me distrairia e talvez a desgraceira toda da Scarlet me fizesse sentir um pouco menos miserável naquele lugar. Talvez seja mesmo uma boa aquisição.

Àquela altura o celular parou de funcionar e eu não tive opção a não ser começar a xingar todas as coisas ligadas de alguma forma àquele nonsense. Malditos humanos que insistem em se acumular em um lugar onde simplesmente não cabe mais ninguém, muito menos os milhares de carros que saem das lojas todos os dias. Tanta terra vazia por aí, tanta cidade pequena precisando de gente... Não, somos urbanos e modernos e queremos viver em um lugar que seja cinza, cheire mal, tenha o ar mais poluído da América do Sul e onde possamos passar ao menos quatro horas do nosso dia trancafiados dentro do carro.

Sim, eu sei que a cidade tem lá suas coisas boas mas aquilo tudo me deixou amarga. Mil perdões. Eu precisava compartilhar a minha irritação e para o azar de vocês, agora tenho o blog. Não costumo falar e muito menos escrever assim mas é um texto sobre São Paulo e, enfim, Sampa merece.

Um comentário:

Juliana disse...

Li seu texto pra Pamela (hehehe) e contei q vc me ligou com vontade de chorar. Ela disse q sempre chorava nos engarrafamentos em Sampa...

Nada como a Francisco Glicério...