domingo, 15 de fevereiro de 2009

Adelina

Eu saí de lá toda remexida. A sensação era de que as minhas células tinham sido oxigenadas com uma enorme golfada de ar iluminado por aqueles pinos amarelados, ao som das cordas roçando o arco nas mãos da atriz.

Boa arte faz isso comigo. Fricciona, cria atrito, movimento.


Boa arte, sensível, transformadora, desvia o que eu sinto e penso do meu trivial, do caminho que eu sentiria e pensaria só e me conecta, por entre pancadas, desvios e esbarrões, com o caminho do outro e suas novas e impensadas sensações.

Não desprezando as palavras, mas há outras formas de comunicação...

Frase de Adelina Gomes, esquizofrênica, paciente do Hospital Psiquiátrico de Engenho de Dentro dos 21 anos de idade até sua morte aos 68. Vista como agressiva e perigosa a princípio, encontrou na arte sua forma de expressão e comunicação, tendo produzido mais de 17.500 obras que inspiraram outros tantos trabalhos, dentre os quais a peça “Quando ando em pedaços ou notas sobre minha mãe” que me sacudiu.

Adelina está certíssima. Há definitivamente outras muitas formas de comunicação, infinitas vezes mais eficazes e intensas do que a verbalização de pensamentos. Formas diretas, sem filtro, do olho no olho, do corpo com corpo, à distância ou não. Do bicho de um movendo o essencial do bicho meu, provocando sensações que arrebatam, tomam conta e criam um caos interno que depois, só depois, se traduzem em pensamentos, idéias, entendimentos e conclusões racionais. As sensações permanecem, porém, mesmo depois do processo mental e continuam permeando a existência e funcionando, em conjunto com as infinitas outras sensações que nos tomam diariamente, como catalisadores de idéias, desejos e realizações.


A arte, e não o raciocinar, é o que de fato nos distingue dos demais seres perambulantes por aí. A arte inquieta, transforma, impulsiona e define o humano em nós.

3 comentários:

Tatiana disse...

Do cacete este eu texto, minha amiga. Emocionar, do jeito que for. Isso aí!

Ju Hilal disse...

Obrigada Tati.
É isso aí, não é? A gente sabe que é.
Ah, a arte.
Beijos querida

Candy Girl disse...

Ufa, foi maravilhoso mesmo, de tirar o folego... E amanha tem mais arte pra gente se inspirar, oba! bjo