sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Madagascar

Outro dia assisti finalmente ao desenho Madagascar, aquele dos quatro animais da big apple que conseguem fugir e acabam indo parar na ilha africana. Adoro esses desenhinhos. Amo, me divirto horrores.

Acontece que desde o momento em que os quatro figuras puseram as patinhas nas areias daquela praia deserta, eu me peguei curiosíssima para descobrir como os roteiristas fariam para solucionar aquele problemão. Olha só, três herbívoros, um leão. O leão de Nova Iorque comia steaks finamente preparados, cortados, temperados, carne de primeira em forma de bife de desenho para que ninguém, nem mesmo ele, tivesse uma vaga lembrança de que aquilo um dia foi um bicho que andava, comia e fazia muuuuuú.

Na ilha, into the wild, big problem, já que o leão teria que comer um bicho vivo em um desenhinho infantil. No way. Sabe quando o bichinho fofo e divertido, protagonista do babado, comeria outro animal inteiro e alive em um desenho desse tipo? Nunquinha. Matar o pai do Simba no Rei Leão já deu o que falar e provocou uma série de discussões sobre a exposição das crianças às crueldades da vida, imagine o cool e simpático leão Alex se alimentando de um bichinho peludo da floresta. Ahã. Espera sentado.

Lá pelas tantas esse virou o conflito principal do roteiro, com o dito lutando internamente contra a sua natureza de leão. Sou carnívoro, estou varado de fome mas estou em um desenhinho infantil. A vida não tem dessas coisas em um desenhinho infantil. Oh céus, oh vida, o que fazer?

No desespero ele mordeu a zebra, começou a enxergar todos os bichinhos fofos como t-bones, quase comeu uma série de amiguinhos peludos até que se isolou disposto a morrer de fome e eu lá, pirando para saber como aquilo iria se resolver.

Quem salvou o dia? O sashimi. Comida japonesa é mesmo tudo, né gente? Sobrou para o pobre peixinho que já apareceu mortinho da silva, com os olhos em X em cima da mesa, todo decorado. Ótima saída, peixe não é fofo, não iria fugir ou sofrer para morrer. Eles nem precisaram mostrar a pesca do coitado que parecia mais uma coisa, um bife de desenho que simplesmente surgiu, convenientemente desfalecido, para garantir a alegria da bicharada e das platéias mundo afora.


Só não deixe seu filho assistir a Madagascar na sequência de Procurando Nemo. Ele poderia juntar as pecinhas e se tocar de que o peixe é na verdade um bichinho que pode ser fofo, sentir amor, dor, e apesar de ter uma memória péssima às vezes (me identifico tanto com a Dori...) pode ser um grande amigo. Ele poderia ver o final de Madagascar com outros olhos e achar que a natureza é mesmo cruel. Ele vai ter tempo para descobrir isso de outras formas, muitas vezes depois. Por enquanto deixe o peixe continuar sendo só um bife de desenho.

3 comentários:

Vivien Morgato : disse...

Boa a animação, gosto do ritmo das piadas e - no caso da dublagem brazuca- das vozes escolhidas.
Interessante essa questão, essa hiper proteçãoda molecada,né?
Porque se a gente for avaliar oscontos de fada, na sua essência sem o embromeixam hollywoodiano, a gente vai se deparar com um númerode horror e violência significativo, relacionado exatamente aos medos da época.
Gostei do seu texto,beijocas.

Ju Hilal disse...

Obrigada Vivien.
Essa questão é muito interessante e pouco tratada.
Parece contra-senso mas os contos de fadas são bem mais realistas.
rs
Beijão

paula disse...

Impossível não ler "Madagascar" e não ficar na cabeça:
Rostinho bonito, mexendo o quadril,
Olhando pra você meu queixo caiu.
Já vi que você está entrando no meu pique...
Navega no oceano como o grande Titanic...

Rostinho bonito mexendo o quadril,
Olhando pra você meu queixo caiu.
Já vi que você está dançando sem xilique...
Navega no oceano lá vai o Titanic..

Muito
Eu me remexo muito
Eu me remexo muito
Eu me remexo muito
Remexo...muito!!

(Titanic me lembra você)