terça-feira, 19 de agosto de 2008

O Batizado

Ela chegou linda. Uma princesinha toda de branco, vestido plissado, faixa nos cachinhos castanhos, sapato branco chiquérrimo e bolsinha pendurada de lado. Um charme.

Eu cheguei atrasada, lógico. Não atrasada, atrasada. Cheguei na hora para a cerimônia, mas perdi todas as instruções de coordenadas dadas meia hora antes aos padrinhos. Domingo de manhã... Paciência. Colei no Gabriel (o padrinho), perguntei as principais orientações e entrei na fila na porta da igreja.

Entramos. Ela se deslumbrou com o visual. Aquela igreja é mesmo linda. Toda rodeada de vitrais enormes coloridos, altar gigante cheio de brilhos. Luz entrando por todos os lados. Eu me deslumbrei. Ela nem piscava.

Sentamos, os cinco, no mesmo banco: eu, minha irmã, meu cunhado, o Gabriel e a piquita, e como não poderia deixar de ser, fervemos horrores. Qualquer dia ainda vamos ser banidos por mau comportamento de um desses eventos religiosos.

A Larinha, pelo jeito, puxou à família e era a mais desgovernada da trupe. Sem nenhuma cerimônia, falante que só ela, já totalmente fluente na língua dos bebês, agarrava os cabelos da minha irmã e abanava os bracinhos para o alto, o que resultava em alguns tapas sonoros e extremamente doloridos, que por sua vez provocavam gargalhadas também sonoras da pequena e dos adultos babões.

Ela fez de tudo: brincou com o seu livro inflável, comeu danoninho, deu um show de alongamento saboreando o sapato novo, fez bruuuu, dançou música sacra, deu tchauzinho, bateu palma e lá pelas tantas, vomitou. Nada sério, só um blurp regado a leite em pó que, por sorte, combinava com a cor do vestido plissado. Nós, em volta, acompanhávamos as peripécias do pacotinho e sapeávamos o andar da celebração. Era fácil: quando percebíamos alguma movimentação generalizada ou quando começava alguma musiquinha do coro, suspendíamos a ferveção. Musiquinha é batata. Se tem musiquinha, lá vem alguma coisa que envolve a criança, ou a madrinha, ou as duas.

E ela ficou de boa. Eu tinha medo de que ela chorasse, ficasse nervosa, agitada, assustada. Nada disso. Curtiu mesmo. Uma mocinha. As únicas exceções, sei lá se por conta da batina ou da aparência estranha do padre, foram os momentos em que ele se aproximava e ela ameaçava dar um piti. Só ameaçava, porque eu logo apontava e dizia “olha o tio, Lalá, olha o tio”, e ela olhava, e fazia uma cara de e sossegava. Tá, talvez eu tenha dito “olha o tio” muito alto em uma das vezes e a minha irmã tenha me cutucado e falado morrendo de rir: “psiu, pára de chamar o padre de tio”, mas isso é detalhe. A estratégia funcionou, a Larinha gostou de olhar aquele tio esquisito e é isso que vale.

Por incrível que pareça, a baixinha ficou de boa até na hora da água na cabeça. Criança normalmente chora, esperneia, faz a desgraçada. Ela nada. Coloquei a cabecinha dela no meu braço esquerdo (lição do curso de madrinha), virei para a pia, chuá... Ela riu. Sorriu para o tio. Acho que ela pensou: “êba, o tio estranho vai me dar um banho”. Certeza. Ela adora banho.

Sei que no fim, ela se deu bem com o tio, amou os vitrais coloridos, chacoalhou com as músicas e ainda se encantou com a imagem de Nossa Senhora. Ficou deslumbrada. Olhava atenta, pegava, passava as mãozinhas... Gostou tanto que acho que vou dar uma Nossa Senhora de presente para ela de aniversário. Já estou até vendo as amiguinhas com bonecas em formato de bebês, brincado por aí, e a Larinha circulando com uma imagem de Nossa Senhora nos braços, brincando de ninar.


Brincadeiras à parte, o ritual foi bonito e eu realmente me emocionei no momento do batismo. Bonito o símbolo. Bonita a reação e a emoção das pessoas àquele símbolo. Poético o banho no meu anjinho. Transformador. Hoje eu sou a madrinha da Lalá.
















sexta-feira, 15 de agosto de 2008

TPM, eu?

E eu que sempre me gabei de não ter TPM. Hora de rever alguns conceitos.

Sempre me gabei porque não fico de mau humor, não subo pelas paredes, não arranco os cabelos por besteira. Nada disso. Sou da paz até nos benditos dias que antecedem a regra.

Acontece que ultimamente tenho percebido um padrão que tem me deixado cabreira.

Lágrimas. Há dias em que eu viro um potinho de Aviação completamente líquida de tão derretida. Fico tão, mas tão emotiva que qualquer propaganda de Doriana me faz suspirar fundo para não borrar o make up. Nesses dias, entro no carro e ligo logo a CBN para não correr o risco de ouvir uma baladinha mais lenta. Brasileiro no pódio da olimpíada, então, valha-me Deus. Nem adianta tentar segurar. E às vezes não seguro mesmo. Não dá. É aquele filme que mexe comigo, aquela música escrita para mim, aquela lembrança doída... Desabo, viro um ET de nariz vermelho e pálpebras inchadas e destroço a caixa de Kleenex e passo o resto do dia com uma pedra de três toneladas na minha cabeça.

Eu não sou assim, gente. Nunca fui. Tá, não sou um iceberg mas também nunca fui de me desmantelar desse jeito por qualquer coisinha. O bafão nunca me caiu bem, sou mais contida, reservada, um “eterno segredo”, como diria a minha mãe. Agora isso.

Então paro para pensar e percebo que esses dias de comportas abertas coincidem miraculosamente com o meu período fim de ciclo. Quem diria, eu de TPM. Essa é nova e espero que se torne velha logo. Isso cansa, estressa. Haja floral. Nada contra os ciclos, nada contra extravasar as emoções, mas daí a soluçar revendo Friends, ninguém merece.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Vovó e a Trilha

A minha avó fez trilha comigo esse fim de semana. Trilha mesmo, nada de estradinha de terra ou passeio no bosque. Trilha com troncos, pedras, lama, subidas, descidas e uma nascentezinha de rio lá em cima como recompensa. Coisa mais linda, não a trilha, a minha avó.

Ninguém botava fé em que ela iria realmente encarar o caminho. Ela sempre foi super urbana, caseira, mãe exemplar, avó maravilhosa, mulher by the book. Nunca fez trilha na vida, longe disso. 78 anos de idade. Pois não só encarou o caminho, como o fez com um bom humor de dar gosto e um bom gosto de babar, com direito a colares, brincos, pulseiras e um par de chinelinhos de sola lisa, porque usar tênis, nem pensar. Vaidosa... Essa mulher é demais.

O percurso não foi fácil, ela passou por alguns obstáculos complicados, riu dos seus pequenos escorregões amparada pelas nossas mãos e se esbaldou. O seu sorriso aberto naquele ambiente tão diferente de tudo a que ela está acostumada e rodeada pelos seus entes próximos e queridos é uma das imagens mais deliciosas que vou guardar comigo. Esse tal amor incondicional é mesmo uma coisa louca.

O passeio foi um presente inesperado, uma passagem por uma trilha desconhecida ao som de histórias e risadas de pessoas que me conhecem desde sempre e que são a minha referência, minha base primordial. Lavagem de alma das boas, dessas que não se programa, que a conjunção das coisas te proporciona e que você simplesmente aproveita e registra lá no fundo do ser e em uma câmera digital, se tiver sorte.

































quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Olimpíadas

O-lim-pí-a-das. Uhu, mil vezes uhu.

Eu já mencionei que sou uma dessas loucas por olimpíadas? Não, né. Falha grave. Sou mesmo. Devia estar no meu perfil. Adoro, amo, piro na batatinha. Deve ser porque eu sempre joguei de tudo, gostei de tudo, e porque eu sou brasileira roxa. Torço mesmo, de xingar, e acordo às 4 da manhã para ver a final do vôlei de praia, e varo noite emendando natação no judô no basquete na esgrima no salto com vara na marcha atlética na ginástica rítmica no nado sincronizado e por aí vai.

Só de pensar em ligar a TV a qualquer hora do dia ou da noite e ver aquilo tudo acontecendo ao mesmo tempo agora eu já fico maluquitadasilva, mas isso eu nem precisava dizer, já que o andar do texto já me denuncia facinho.

Sei lá, gente. Sou assim. De quatro em quatro anos acontecem esses vinte dias fantásticos que passam voando e deixam uma saudade gigante e um buraco enorme na minha programação televisiva quando terminam. E aí eu digo, na próxima eu vou assistir ao vivo, e passam os quatro anos e chega Atlanta, Sydney, Atenas, Pequim e eu aqui, do outro lado da telinha. 2012 está aí e me segura porque de Londres não passa.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Até Você Dormir

Eu vou ficar com você até você dormir”. Mãos dadas, dedos escorregando de leve pelos cabelos longos, olhos de ternura.

Essa foi a cena de um filme que vi esses dias, ótimo, carregado de entrelinhas, personagens vivos, cheios de camadas. Coisa de gênio. A cena me tocou de um jeito estranho. Na verdade me lembrei das vezes em que tinha ouvido essa mesma frase nessa mesma situação. Lembrei da sensação, daquele calorzinho no peito, da segurança, do conforto e da paz de ter alguém que te ama te vendo dormir e ninando você.

Que importância têm esses momentos na vida da gente. Não são grandes acontecimentos, não mudam os rumos, não tremem o mundo, mas são o tempero que dá graça a essa viagem de grandes objetivos, o nosso respiro, o alívio para essa sombra de solidão que permeia o humano entre o chegar e o partir.

Passei o dia pensando nisso, nas vezes em que fui cuidada assim pela minha mãe, pelo meu pai e por outras pessoas que compartilharam comigo esse carinho e me senti tão privilegiada e ao mesmo tempo muito só. Serzinho complicado esse aqui. Peito grande demais, cheio de reverberações. As coisas eram tão simples na época do ninar pela mamãe...

terça-feira, 5 de agosto de 2008

O Figura

Dá prá fazer depilação a laser na cabeça?”

Ele me perguntou de repente como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo. Olhei para ele procurando algum traço de humor e nada, a questão era mesmo genuína.

Gargalhei, muito. Ele entendeu a graça e entrou no riso, meio sem jeito, meio na defensiva, querendo justificar a normalidade da sua pergunta. Todo o mundo pagando fortunas por um implante, usando shampoo de jaborandi e elixir milagroso para crescer cabelo e ele querendo arrancar prá sempre. Típico. Ele não é normal e sabe perfeitamente disso, nós dois sabemos. Cá entre nós, muito melhor assim.

Ele é uma das figuras mais interessantes, engraçadas e mal humoradas que eu conheço, responsável por aquelas piadas ácidas de franzir a testa. Se qualquer outra pessoa fizesse os comentários que ele faz, o mal estar seria completo. Com ele, vira piada - só piada, só risada, o tempo todo. Ele fala de tudo e de todos e faz questão de dizer coisas politicamente incorretíssimas, para as quais eu muitas vezes nem tenho reação. Depois de todos esses anos ele ainda consegue me surpreender com a sua percepção do avesso da natureza humana, com os seus conselhos sentimentais estranhos (para dizer o mínimo) e com a sua vaidade inigualável, o que nos leva de volta à primeira frase inspiradora desse texto.

Depilação a laser na cabeça, fala sério. Só um figura como ele para ter uma idéia de jerico assim. Aliás, ele é cheio das idéias nonsense quando se trata do visu. Quarta queimou as pintinhas do rosto, vive falando que vai fazer uma lipo e cirurgia no nariz, malha como louco, caminha no Taquaral, toma suplemento, dança na frente do espelho e agora quer depilar a cabeça com laser.

Eu só dou risada e aproveito as suas tiradas inesperadas. Estar com ele é mesmo um prazer diferente, como comer um daqueles chicletes ácidos que ardem até a alma mas que você gosta e acaba sempre querendo mais. Eu tenho um estoque deles comigo e como mesmo, adoro. Engraçado como pessoas tão diferentes de você acabam se tornando inesperadamente seus grandes amigos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Tomando

Em conversa com uma amiga: “Menina, você emagreceu muito. O que você anda tomando?”

“No cú. Não literalmente...”, foi a resposta na lata, sem titubear.

Gargalhamos loucamente. O pior é que era mesmo verdade, historinha cabeluda, a dela. O melhor é que tomar naquele lugar tem de fato esse efeito sobre a silhueta de uma mulher, mais eficaz que vigilantes, inibidor de apetite de gotinha e aula de powerjump junto. Infalível. Até o meu apetite, sempre voraz e inabalável, se estremece com doses inesperadas de nocú.

Recomendo, porém, doses pequenas, espaçadas, homeopáticas. Dosagens maiores trazem efeitos colaterais absolutamente indesejáveis.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Como uma Deusa

Abri os olhos... Como uma deusa...

Ãh? Rosana? Que diabos essa música está fazendo dentro da minha cabeça?

Pisquei, olhei para o teto, cocei a barriga do Lu, tentei pensar em outras coisas, mas a maldita balada rainha do brega teimava em continuar ressoando em alto e bom tom no meu íntimo.

De onde saiu isso? Que raio de conexão desnorteada aconteceu nas minhas sinapses para essa música jurássica e aleatoríssima invadir assim a minha manhã?

Levantei, escovei os dentes, fui passear com o pequeno, voltei... Tão perto das lendas, tão longe do fim...

Vixe.

Tomei café, li o jornal, atendi o moço da banheira, liguei o computador... Aqui neste lugar, não há rainha, ou rei...

A coisa não me largava de jeito nenhum. Ninguém merece O Amor e o Poder, gente.

Decidi apelar. Existem algumas músicas que são tão, mas tão grudentas que uma vez implantadas em você, nem Cristo tira. Uma dessas seria a minha salvação. Tudo, ou quase tudo, seria melhor que como uma deusa. Avaliei minhas opções: Háháhá da Xuxa, O Pintinho... Não, trash demais, e então o velho Frank me salvou.

Bastou cantarolar o refrão e pronto: um dia ao som de New York, New York. Assim sim.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Escatologias

E a gente que pensa que já passou por saias justas nessa vida. Hoje eu descobri que as coisas podem ser sempre muito piores.

Pois bem, aniversário de uma amiga em plena segundona. Todo mundo em volta da mesa falando sobre amenidades quando o assunto se enveredou por uma seara, digamos... Marrom.

Duas figuras que estavam por lá resolveram compartilhar com os amiguinhos as suas histórias de embaraços escatológicos, com direito a todos os detalhes sórdidos possíveis. Eu, depois de quase ca...ir de tanto rir, me sinto no dever de compartilhá-los com vocês. Aviso desde já que se trata de histórias reais, apenas com o palavreado dos relatos aliviado, uma vez que em uma mesa regada a cerveja e whisky as histórias foram obviamente contadas com mais carga nas tintas. Os santos responsáveis pelos milagres serão mantidos eternamente em segredo. Nem adianta perguntar.

Primeiro relato, o piloto da série. Cenário: Parque Portugal, vulgo Lagoa do Taquaral em Campinas. Estava o Santo 01 a caminhar tranquilamente pelo calçadão quando sentiu uma familiar pontada, chamada carinhosamente por ele de “bicada do urubu”. Tentou evitar o desastre com passinhos miúdos e contração das nádegas, mas as pontadas triunfaram e, na falta de lugar melhor, aliviou-se como pôde em um terreno baldio no meio da avenida. Com a cueca, o derriere e as pernas completamente sujos, não teve dúvidas: limpou-se com a bermuda que ficou imprestável e, completamente nu, saiu em disparada em direção ao banheiro do parque. Correu uns bons quarteirões escandalizando senhorinhas e crianças inocentes até atingir o seu destino final. Lá ficou, sendo resgatado pelo cunhado algumas horas depois.

Encorajado pela sinceridade do Santo 01, o Santo 02 decidiu então compartilhar uma de suas histórias. Cenário: cometão em uma viagem Sampa-Campinas em dia de engarrafamento na marginal. Estava ele dentro do ônibus incomodadíssimo com a demora para chegar à estrada quando as pontadas começaram. Segura que segura que segura até que entraram finalmente na rodovia. Talvez dê para esperar, pensou. Não deu. No desespero e sem opções, abriu a janela, posicionou-se ventilando a buzanfa e mandou ver. Tomara que o motorista não olhe pelo retrovisor...pensava, enquanto premiava asfalto e algum veículo azarado que passasse por ali. Imaginem a cena: pára-brisas carimbado e o motorista atordoado imaginando o tamanho do pombo que fez aquele estrago...

De volta ao Santo 01 - agora totalmente desinibido - mais um relato para o nosso deleite. O cenário seria também um cometão. Aparentemente esses ônibus têm um efeito devastador sobre a flora intestinal de determinadas pessoas. História parecida, desfecho mais assustador. OK, marginal lotada, demora, bicadas do urubu, vontade incontrolável. Solução: abriu alguns formulários de pedidos que tinha em sua pasta de trabalho, agachou-se entre os últimos bancos e relaxou, o cheiro insuportável invadindo o ônibus e começando a despertar as pessoas lá da frente. Terminado o serviço, resolveu o espertão arremessar a obra para fora do ônibus. Com o embrulho na mão, abriu a janela e... Surpresa, a ventania que entrou jogou o pacote novamente para dentro, espalhando dejetos para todo lado. Merda ao vento, pura e literal.

À essa altura todos na mesa haviam obviamente parado de comer, de falar e de fazer qualquer outra coisa que não fosse gargalhar e beber. Inacreditáveis essas situações. E houve outras, houve de tudo na verdade, com direito a esparramar cocô pelo papel de parede chiquérrimo de uma clínica de estética, valer-se de um copo de milk-shake do Bob’s para aliviar-se dentro do ônibus, parar o carro com o farol aceso e a porta aberta no meio da rua para correr e fazer a coisa no terreno baldio em frente a uma platéia nas sacadas do prédio da frente... E ser aplaudido de pé.

Eu ouvia a tudo e agradecia todo o tempo por não ter esse tipo de problema. É muito constrangimento, gente, Deus me livre.

Eles, porém, parecem ter se acostumado com o risco e, pela tranqüilidade com que falaram do assunto, abstraíram desses pudores sociais. Cocô é cocô, todo o mundo faz, a maioria no banheiro, alguns em lugares mais inusitados. Quem nunca sentiu a tal bicada do urubu que atire a primeira pedra.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Corujices

A minha sobrinha vai ser uma figura.

Essa pequena teve o seu aniversário de um mês, no bar. Sim, no bar. A piquita nem abria os olhinhos direito e já estava na balada.

De todos os mordedores disponíveis, a gorducha resolveu coçar os seus dentinhos nascentes (quatro, tadinha) justamente com o mexedor de drink da Bacardi. Adora. Segura no morceguinho e vai firme e forte passando o plástico ondulado pela gengiva rosinha.

Água a mocinha toma no copo de tequila escrito Smirnoff. “Para ir acostumando”, diz a minha irmã para as visitas enquanto fala para ela "bebe, Lalá, bebe". Que dúvida.

O aniversário de um ano do pacotinho vai ser, obviamente, no bar. Nada de buffet com piscina de bolinhas, fliperama japonês ou videokê. O DJ vai tocar Baby Hits enquanto a criançada corre pelo palco da banda e os adultos tomam whisky e comem pizza de filet com cheddar. Na mamadeira, por enquanto, só leite.

[...]

Ela ri. Mesmo doentinha, ela ri. E cresce e aprende coisas de um segundo para o outro de uma forma inacreditável. Acompanhar e participar do processo e das descobertas de uma criança te toca de um jeito que não se explica. Quem passou por isso sabe do que eu estou falando.

Hoje ela descobriu a acelga, o jogo americano e os “dadás”.

A acelga: pegou um pedacinho do talo branco e colocou no canto da boca. Nós rimos, ela percebeu. Lá ficou a acelga, parada no cantinho da boca que não parava de sorrir. Olhava para um, fazia charme para outro, se divertindo com o gosto do novo e com o efeito daquele gesto nos adultos ao seu redor. Ela só tirou o talinho de lá quando viu a papinha. Puxou a tia, bom garfo a pequena.

O jogo americano: ela sempre gostou de brincar com ele. É de bambu, duro, bom para bater o chocalho e as mãozinhas para fazer barulho. Hoje ela descobriu que ele tem frestinhas por onde se vê o outro lado. Haja charme dessa gostosura olhando para os quatro patetas babões por trás dos bambus, rindo e brincando de esconder. Levantava e abaixava os olhinhos e dava gritinhos e falava coisas, até que no meio da brincadeira apareceram...

Os “dadás”. Pela primeira vez a conversa entre nós foi de mão dupla. Ela sempre foi falante, mas com as coisinhas dela, sons desconectados dos nossos. Hoje ela respondeu aos nossos “dadás”. Estabeleceu-se a comunicação. Nosso primeiro bate-papo de família, os cinco trocando idéias na língua dos bebês.

Eu não achei que fosse ser tão coruja, confesso. Mas eu também não sabia que a minha piquita seria a coisa mais linda do mundo. Amanhã tem mais folia, e conversa. Me segura quando ela disser titia.