segunda-feira, 24 de março de 2008

A Filosofia do "Paciência"

Na qualidade de economista, tive a oportunidade de conviver durante anos com um grande advogado. Trabalhamos juntos em inúmeros casos, viajamos, enfrentamos volumes e volumes de autos processuais, audiências em ministérios, reuniões cabeludíssimas, enfim, tudo que a vida profissional envolvendo assuntos jurídicos tem a honra de nos oferecer.

Na verdade essa vida me deixava louca.


Tenho plena consciência de que uma grandissíssima parte de minhas cãs decorre definitivamente de minhas peripécias por essa seara destrambelhada. Dias e noites ininterruptas de análises, planilhas, textos, prazos, clientes fora de controle... Tudo isso ainda tinha de ser conciliado com inúmeros outros compromissos pessoais diários, o que resultava em um dia-a-dia um tanto quanto... Insuportável.

Por vezes, um assunto se complicava de tal forma que não havia soluções disponíveis. Xeque-mate. Nesses casos, por mais avançada que fosse a capacidade de argumentação ou imaginação dos seres envolvidos, não existia simplesmente o que fazer. Preto no branco. E foi em uma dessas situações que aprendi uma das maiores lições de minha vida: a filosofia do “paciência”.

Fui apresentada a ela pelo grande doutor. Ele, do alto de sua sabedoria adquirida ao longo de décadas e décadas de circulação por este mundinho, desenvolveu uma técnica infalível que revolucionou toda a minha existência. Sua simplicidade é, porém, espantosa. Consiste, unicamente, em aceitar-se que, uma vez esgotadas todas as possibilidades, há que desprender-se de tudo e apenas dizer: “paciência”.

Pois bem, se a idéia é absolutamente simples, a sua aplicação para casos concretos definitivamente não o é. Foi esse, na verdade, o grande ensinamento do sábio doutor. Isso porque, nas situações mais estapafúrdias, em que qualquer ente do planeta estaria literalmente pirado, o magistrado apenas sentava-se em sua cadeira presidente, reclinava-se, fixava os olhos em mim e dizia... “Paciência”.

“Paciência, doutor?”

“Paciência.”


E pronto. Resolvitum est.

A situação se repetiu inúmeras vezes ao longo de anos, e eu, aluna dedicada, aprendi a lição. Confesso, porém, que mesmo após tanto tempo de observação e estudo, a aplicação de tal filosofia ainda me requer uma boa dose de concentração e esforço.

Nos casos mais simples, corriqueiros, a sua aplicação é quase automática, e um imbróglio que antes seria capaz de presentear-me com algumas dúzias de cabelos prateados, hoje não me aflige mais. Há casos, porém, em que por mais que busque em meu âmago a lição do mestre doutor, ainda não sou capaz de aplicar a filosofia. Paciência.

A sabedoria vem com o tempo, desde que se trilhe o caminho correto.

Sigo, pois, exercitando-me. O pedido não chegou a tempo? Paciência. A faxineira deu o cano? Paciência. Acabou a força e perdi tudo que havia escrito nas últimas 7 horas e meia? Paciência. O carro quebrou no meio do temporal e afundou na enxurrada? Filho da put... Paciência.

A relação de possibilidades para a aplicação da filosofia é infindável. Exercite-se. Um mundo novo se abrirá à sua frente e sua vida será muito, mas muito mais fácil. E não se zangue se não for capaz de aplicá-la de pronto. Anos e anos de costumes prévios terão de ser re-programados e isso não é das coisas mais simples.

Apenas lembre-se de que uma mera palavra balbuciada nos momentos certos ao longo da vida pode significar a diferença entre um enfarto precoce do miocárdio e uma velhice tranqüila a beira mar em Canoa Quebrada. E já que não encontrei um final melhor para este texto, ele acaba aqui, assim mesmo. Paciência.

Um comentário:

Paula disse...

Como diria Shakespeare: "A paciência é a mais nobre e gentil das virtudes."
Apesar de já me ser familiar a história do sábio Dr, gostei mto do texto.
É a verdade, não é? Paciência...
(Adorei o final...hehehe)