terça-feira, 11 de março de 2008

No Elevador

Chovia lá fora. Abri a porta do elevador. Entrei. Uma mulher usando o uniforme de funcionária de um grande hospital da cidade estava lá dentro, demasiadamente próxima ao painel do aparelho, com uma feição assustada, a portinha do comunicador de emergência aberta e a mão direita estacionada sobre o fone.

Que estranho, pensei. “Boa noite”, disse.

Ela: “boa noite”.

Parecia bem nervosa. Logo descobri que realmente estava: “Já deixei a porta do interfone aberta para o caso de acabar a força. Sabe como é quando chove...”, e finalizou a frase com um risinho histérico.

A mulher é doida, pensei. “Não se preocupe, moro aqui há um bom tempo e isso nunca me aconteceu”, disse, finalizando a frase com um sorriso calmante.

Ela: “Nunca se sabe, são muitos andares até lá em cima”.

Eu: “Ah, mas passa rápido”.

Ela: “Passa nada. Você sabia que dá para rezar dois Pais-nossos e uma Ave-Maria antes de chegar lá?”. Outro risinho histérico.

Paranóica é pouco. Isso que é medo de elevador, a mulher reza dois Pais-nossos e uma Ave-Maria toda vez que vai subir ou descer?, pensei. “Jura? Não sabia...”, disse.

Ela: “Ave-Maria, não, Glória ao Pai.”

Ãh?, pensei. “Ah...”, disse.

“Você é católica?”, perguntou.

Eu: “Não...”.

Ela: “Ah...”.

O elevador parou, são e salvo, em nosso andar. Saímos as duas, lados opostos, “boa noite”.

Entrei em casa pensando em como alguém poderia ter tanto medo de uma coisa tão normal. Entrar no elevador é para mim tão assustador quanto beber um copo de água, chova ou faça sol. Será que ela já ficou presa por horas, sem ar, dentro do cubículo de transporte vertical? Será que ela já testemunhou a chegada ao pronto-socorro de vítimas de um terrível acidente de elevador? Será ela claustrofóbica?

Meus medos são poucos e de intensidade proporcional à probabilidade calculada de que algo realmente ruim aconteça. Quais as chances de ficarmos presas no elevador? Razoavelmente baixas. Qual a probabilidade de que uma eventual queda de energia dure mais do que alguns minutos? Pequena. Qual a possibilidade de que algo efetivamente perigoso aconteça enquanto estivermos hipoteticamente presas dentro do elevador? Praticamente nula. Resultado: calma.

A propensão de certas pessoas a esperarem pelo pior realmente me espanta. A vida deve ser muito mais difícil assim.

Me espanta também o fato de ser possível rezar as três orações enquanto o elevador sobe treze andares. Checarei isso da próxima vez em que for usar o elevador. Agora me dê licença que preciso decorar o Glória ao Pai.

5 comentários:

POR TUDO QUE SINTO disse...

Gosto...
Gosto muito!
Depois me conta se é possível!!! Rs!

Bjs e bem-vinda!!!!!

Eloá disse...

Eu e a Luara fomos visitar uma amiga. O prédio que ela mora é relativamente novo, mais novo que a Luara ele deve ser, ela ainda não fez 7 anos.
O elevador não estava no térreo (ele nunca está quando a gente precisa).
Chamei o elevador, ou foi ela?
Entramos.
O elevador era estremamente antipático. Apertado. Prateado. Lento. Sufocante.
Eu pensei imediatamente: se algum dia ficar presa num elevador espero que não seja esse!
Terminada a visita eu me diriji ao antipático... a Luara olhou para mim e disse com todas as letras: eu não quero descer nesse elevador!
Ela mora na cobertura... ainda bem que é um prédio baixo - pensei.
Descemos pelas escadas escuras, uma parte quase esquecida pelos moradores, não fosse pelo fato de se entrar no pequeno escuro e fedido hall para levar o lixo.

Ela não tem medo de eladores, nem eu... mas naquele ela não quis entrar.

Agora estou me perguntando como vai ser quando eu voltar lá e ela se lembrar do elevador.

Será que vamos ter que subir os 7 andares de escada?

E pra subir? Que santo que ajuda? rsrs..

beijos, amiga.

Eloá disse...

oops...

Reli.
Que falta faz revisar, não é?
Extremamente com x... lembrei da Leda.

bjs, amiga.

Renata disse...

Oi, Ju, aqui é a Rê do SER. Recebi seu e-mail com a divulgação do blog e resolvi conferir no mesmo instante! Já te adianto que virei "freguesa", hehehe. Só pra confirmar... Essa história do elevador é real mesmo??? Hehehe...

paula disse...

Se até chegar ao seu andar dá tempo de rezar "Glória ao Pai" realmente não sei dizer pq não conheço essa oração, mas que o tempo de "viagem" do seu elevador daria para fazer algumas outras coisas como: montar o cubo mágico, escrever sobre a teoria da relatividade, chegar ao final de Banco imobiliário... Ah! Isso dá...hahahaha
(Deviam deixar essas coisas no elevador, assim a surtada da mulher teria com que se distrair.kkkkk).