quarta-feira, 5 de março de 2008

Ultra-som

Hoje fui fazer um ultra-som, e não me pergunte de quê, pois a parte de minha anatomia que seria devassada em seu âmago não vem ao caso, nem contribui para o desenrolar da história. Pois bem, estava eu semi-nua, coberta nas partes que interessam por um papelzinho desses de secar frituras, deitada na maca da clínica, quando comecei a me dar conta de um sentimento estranho dentro de mim. Calma, o ultra-som não havia começado ainda e, não, não era esse “tipo” de ultra-som.

O sentimento não era físico. Nada externo me infligia aquela sensação que me cutucava o peito, como uma mistura de ansiedade, com um toque de medinho, razoavelmente compensado por uma confiança duvidosa.

Dei corda para o sentimento e sintonizei minha mente para que ela se inteirasse do que estava acontecendo, involuntariamente, dentro da minha caixa torácica. Percebi então que se tratava da ansiedade natural dos seres humanos quando se encontram diante da possibilidade de que suas vidas estejam ameaçadas. Por Deus, eu não tinha nenhuma doença pré-existente, não estava nas últimas nem nada que o valha (três batidas firmes na madeira...). Ao contrário, a minha saúde física encontrava-se em perfeito estado e, na verdade, o grande causador daquela sensação era o fato de que o resultado daquele exame iminente poderia vir a alterar toda essa tranqüilidade.

O ponto é que eu me encontrava diante de um potencial divisor de águas. Minha confiança e minha parte racional, que em geral se sobrepõe fortemente a todas as demais facetas da minha personalidade, me diziam que não havia motivos para preocupações, que tudo estaria dentro da normalidade e que aquele seria mais um, dentre os incontáveis e já esquecidos, exames que eu havia feito durante a minha existência. Entretanto, a mera possibilidade de que algo não estivesse bem, de que meu corpo estivesse de alguma maneira ameaçado pela ação incontrolável do acaso, era suficiente para provocar aquela apreensão que naquele momento me incomodava.

Ali, deitada, esperando a chegada do simpático doutor (que por sinal estava demorando um pouco demais...), eu me dei conta de que, dependendo dos acontecimentos dos próximos minutos, esse poderia ser um dia como outro qualquer, ou poderia se tornar o dia mais assustador da minha vida.

Comecei então a divagar sobre as pessoas que efetivamente passaram por essa experiência, que receberam repentinamente a notícia de que sofriam de um mal grave, possivelmente incurável, e me dei conta do quão devastadora deve ser tal sensação. Pensei também nas pessoas que se valem de uma descoberta como esta para tomarem atitudes, mudarem de vida, transformarem suas prioridades, a ponto de dizerem depois de algum tempo que, ironicamente, a descoberta de tal ou qual doença teria sido a melhor coisa que lhes teria acontecido em toda a sua vida. Impossível não me questionar: qual seria a minha reação? Eu teria uma atitude tão positiva? Eu mudaria de vida?

E devo confessar que imediatamente me senti um pouco patética. Chega a ser ridículo pensar que precisamos receber uma notícia devastadora (a famosa sensação da água batendo nas nádegas) para tomarmos atitudes que gostaríamos de tomar e que simplesmente adiamos indefinidamente por falta de coragem, por preguiça, por comodismo ou por qualquer outra força misteriosa que nos impeça de sermos verdadeiramente felizes.

Que mania é essa que nos domina, de colocarmos nossas vidas em banho-maria, esperando que algo (possivelmente ruim) aconteça para que comecemos a viver? Ora, esse “algo” poderá nunca acontecer, e o melhor de tudo é percebermos que o tal “algo” não precisa acontecer, ao menos não externamente. Nós mesmos, em decisão solo, podemos determinar o momento de surgimento do nosso “algo”, e assim alterarmos a nosso bel prazer o curso de nossas vidas, bastando para tanto a mera percepção da dotação de tal poder.

No auge de tal reflexão, o já citado simpático doutor adentrou o recinto e, após algumas piadinhas polidas para quebrar o gelo, fez o que tinha de fazer e me deu o veredicto: tudo estava dentro da mais completa normalidade. Não que eu esteja reclamando, longe de mim (mais três batidas na madeira), mas não seria hoje o meu divisor de águas. O meu “algo” não havia acontecido, ao menos não por forças externas, e eu teria novamente a chance de fazer por meus próprios meios o meu “algo” surgir. O que eu farei com essa chance só o tempo dirá. E você, deixará que façam “algo” que você poderia e deveria fazer por si mesmo?

Um comentário:

janaina disse...

Olá,

As pessoas se tornaram escravas da desculpa ou do famoso ``si´´, porém nem todas (ainda bem). Seria tão bom se todos vivessem suas vidas como se fosse o último dia. Achei fantástico o q escreveu, relata bem a nossa realidade...
super beijo,
Janaína Brambilla
Jana